Os Pioneiros do ensino de Artes no Paraná

(Um pouco da história das artes no Paraná)


OS PIONEIROS DO ENSINO DA ARTE NO PARANÁ

 (Dulce Osinski é mestre em Educação e professora do Departamento de Arte da UFPR)


A introdução do ensino da arte no Paraná, assim como seus primeiros passos no sentido de uma evolução, encontraram na Curitiba da segunda metade do século XIX alguns fatores facilitadores. Entretanto, as dificuldades decorrentes da falta de infra-estrutura e do movimento cultural incipiente exigiram espíritos fortes os quais, não se curvando aos primeiros percalços, pudessem levar adiante empreendimentos ousados.
O transporte e a comunicação eram os maiores problemas para que as iniciativas relacionadas ao meio artístico pudessem ter conseqüência. Apenas com a Emancipação Política do Paraná, em 1853, teve início uma mudança significativa nesses aspectos. Mesmo assim, a estrada da Graciosa só foi concluída em 1873, e a inauguração da estrada de ferro Curitiba Paranaguá deu-se apenas em 1885.
Com relação à educação, caminhava-se a passos lentos no período considerado. Faltavam prédios escolares, os professores eram mal preparados e praticamente não se podia contar com recursos financeiros e materiais. Os métodos arcaicos de ensino, pouco relacionados com a vida prática das pessoas, também contribuíam para o esvaziamento das salas de aula. Em 1890, contando o Paraná com cerca de 250 mil habitantes, somente 3.800 estavam matriculados em escolas públicas. (CARNEIRO, 1963, p. 336). O ensino secundário, criado por força de lei em 1846, representado pelo Liceu de Curitiba e pela Escola Normal, fundada em 1876 para suprir a demanda de professores na região, também teve, em seus primeiros tempos de existência, poucos interessados.
As primeiras manifestações artísticas, por uma razão de facilidade de acesso geográfico, se deram com mais ênfase na região litorânea do Estado. É de Paranaguá a primeira pintora nascida no Paraná, Iria Correia, e lá se tem registro das primeiras manifestações relativas ao ensino da arte em nosso Estado. Iria Correia era aluna de Jessica James, a qual, fixando residência na cidade em 1849, abriu ali um colégio destinado ao ensino de meninas. Entre as matérias a ensinar, constavam a música e o desenho, considerados indispensáveis à educação feminina completa.
Enquanto no litoral paranaense já se podia observar uma certa atividade regular nas artes plásticas em termos de produção e mesmo alguns indícios de atividades docentes, na Curitiba de 1880 o que podemos constatar é a visita de alguns artistas que estiveram de passagem por essa região. Newton CARNEIRO (1980, p. 13) cita a presença de retratistas ambulantes como Karl Papf, Hugo Calgan e Antonio Ferrigno, entre outros. Não há registro, porém, que algum deles tivesse se dedicado ao ensino da arte.
Não obstante, a abolição da escravatura e a Proclamação da República, entre outros acontecimentos, despertaram pouco a pouco a intelectualidade paranaense para a necessidade de uma vida cultural mais ativa. A fundação de clubes e sociedades, assim como a disseminação dos periódicos impressos, foram determinantes para que isso ocorresse de maneira mais incisiva. O surgimento, nesse período, de inúmeros grupos musicais e revistas literárias nos dá indícios de que as questões relativas às artes plásticas apenas aguardavam o momento de serem levadas à baila. Seguindo uma tendência nacional, em 1890 o Regulamento da Instrução Pública no Paraná inseria conteúdos relacionados à arte no ensino oficial. É interessante notar, porém, que essa iniciativa é posterior à criação, por Mariano de Lima, de sua Aula de Desenho e Pintura, estabelecida em Curitiba quatro anos antes. O  citado regulamento incluía o desenho com aplicação à indústria e às artes e o desenho geométrico e de ornamentos em seu conteúdo programático, demonstrando sintonia com as idéias liberais e positivistas do reconhecimento do desenho como um instrumento capaz de contribuir para o desenvolvimento econômico e industrial do país.
Desta forma, os primeiros passos da arte-educação em Curitiba não se deram via instituições ou por meio do ensino oficial. Foram, antes, frutos de iniciativas isoladas de pessoas que, interessadas pela causa, deram a vida para verem seus sonhos concretizados.
Tampouco foram personalidades da terra as primeiras a se preocuparem com as questões artísticas em nossa comunidade. As iniciativas mais significativas relacionadas ao surgimento de um processo organizado de ensino de artes plásticas em Curitiba deram-se no interstício que vai dos últimos vinte anos do século XIX até a metade do século XX e partiram predominantemente de imigrantes, os quais, com a experiência acumulada nos países de origem, trouxeram novas idéias e a certeza da importância do lugar da arte no panorama cultural de um povo. Destacaram-se entre eles, pela relevância de seus empreendimentos, os nomes de Mariano de Lima, português que aqui chegou em 1884; Alfredo Andersen, norueguês radicado em Curitiba em 1902; Guido Viaro, italiano que fixou residência em Curitiba em 1930 e Emma e Ricardo Koch, poloneses aqui chegados no final dos anos 30. Embora haja um lapso de tempo entre os períodos de suas atuações, cada um deles foi, como veremos adiante, pioneiro sob um determinado ponto de vista, uma vez que o seu empenho pessoal foi decisivo para importantes avanços conquistados.
O ambiente familiar do sul do país, propiciado pelas colônias de imigrantes que aqui se estabeleciam, aliado ao clima ameno do sul, devem ter certamente contribuído para a decisão de nossos primeiros arte-educadores de aqui permanecerem. Porém, nenhum deles fazia parte de grupos organizados de imigrantes. Mariano de Lima, Alfredo Andersen e Guido Viaro parecem ter sido guiados por um espírito aventureiro, embora Viaro tivesse parentes imigrantes em São Paulo. Emma e Ricardo Koch para cá vieram fugindo da iminência de uma guerra mundial, mas sua escolha, ou seja, o sul do Brasil, deveu-se, certamente, ao fato de terem conhecimento da existência de uma população razoável de poloneses e descendentes nessa região. Entretanto, todos eles chegaram a Curitiba isoladamente e se diferenciaram dos demais imigrantes por seu nível cultural e educacional.
Todos esses quatro fundadores das bases para o ensino da arte em nossa comunidade tiveram sólida formação artística em seu país de nascimento, fosse ela formal ou informal. No entanto, a maioria deles teve essa formação direcionada à produção artística, e não à educação propriamente dita. Esse é o caso de Mariano de Lima, Andersen e Viaro, que aqui chegaram como artistas, vindo a se envolver com o ensino contingencialmente e encontrando, através da prática, uma pedagogia artística pessoal.
Mariano de Lima desenvolveu uma metodologia de ensino baseada em modelos aprendidos em instituições do Rio de Janeiro e sofreu a influência, tanto do neoclassicismo, corrente estética predominante na corte naquele período, como das vertentes filosóficas do liberalismo e positivismo, dominantes no Brasil de então. Esse modelo se baseava predominantemente nas cópias de estampas bidimensionais e no paradigma neoclássico da idealização de modelos e de temas históricos e mitológicos. Sua chegada a Curitiba, aos vinte e três anos, desencadeou um processo de desenvolvimento das artes plásticas que, de certa forma, já se encontrava em estado latente, esperando por uma oportunidade para se manifestar. Ao fundar em 1886 sua Aula de Desenho e Pintura, a qual passaria a se chamar oficialmente Escola de Belas Artes e Indústrias em 1889, Lima se afirmaria como pioneiro pela iniciativa de constituir a primeira instituição oficial dedicada ao ensino da arte no Paraná, segundo DIEZ (1995, p. 30), a terceira escola brasileira do gênero, ao lado do Rio de Janeiro e Salvador, a possuir ensino regular de arte. Essa iniciativa teve influência do contato mantido por Lima com o arquiteto Bithencourt da Silva, fundador e diretor do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, por ocasião de sua passagem por aquela cidade.
A Escola de Belas Artes e Indústrias do Paraná mantinha cursos nas áreas de artes plásticas, música, arquitetura e artes aplicadas. Em 1890 seu currículo passou a ser baseado no da Escola Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro, para que houvesse a possibilidade da realização de convênios entre as duas instituições. O curso de música passou a oferecer disciplinas como teoria musical, solfejo, harmonia e contraponto e a parte prática dos mais variados instrumentos orquestrais. Já na área das Belas Artes, os cursos de pintura, desenho, arquitetura, gravura e escultura incluíam em seu elenco disciplinas como desenho de figura e ornato, arqueologia, mitologia e história da arte, algumas delas remetendo claramente ao pensamento estético neoclássico. No que se refere às artes aplicadas e industriais, notava-se no programa do curso a presença de disciplinas como marcenaria, mecânica, litografia, carpintaria, funilaria, encadernação e prendas domésticas. Além disso, a escola também oferecia cursos de línguas e  ciências, destinados a complementar a formação dos estudantes. Os cursos eram todos gratuitos, havendo a preocupação de que muitos deles fossem oferecidos no período noturno, o que evidenciava uma preocupação com a formação de trabalhadores.
Graças a Mariano de Lima, o Paraná teve as primeiras exposições organizadas de arte que se tem notícia, as quais prepararam o terreno para que acontecimentos como a participação da Escola de Belas Artes e Indústrias como representante do Brasil na Exposição Universal Colombiana, em 1893, e a realização da Exposição de Belas Artes do Paraná no Rio de Janeiro, em 1896, pudessem se concretizar. Além disso, Lima foi responsável pela criação e veiculação do jornal A Arte, primeiro periódico especializado no assunto de nosso Estado, e pela criação da Pinacoteca Paranaense, a qual continha, em seu acervo, retratos das personalidades de relevância do Estado. Por sua Escola passaram, como professores, personalidades como Vitor Ferreira do Amaral, Georgina Mongruel, Agostinho Ermelino de Leão e outros. Entre seus alunos ilustres, podemos ainda citar os nomes dos escultores João Turin e Zaco Paraná, expoentes da história da arte paranaense.
Enquanto Mariano de Lima teve, desde suas primeiras ações, forte vínculo com o ensino oficial e regular de arte, Andersen e Viaro foram buscar na sua produção como pintores, aliás de grande importância  para a arte paranaense, os subsídios para sua prática docente. Andersen vinha de uma sólida formação na Academia de Belas Artes de Copenhague e já possuía experiência com o ensino de arte em várias instituições de ensino em seu país de origem. É sua a prerrogativa da criação, nos primeiros anos do século, do primeiro ateliê livre de Curitiba voltado à formação de artistas, sua Escola de Desenho e Pintura. Em suas aulas, Andersen imprimia uma metodologia de ensino que diferia fundamentalmente das práticas pedagógicas da Escola de Belas Artes e Indústrias de Mariano de Lima. Influenciado pelas idéias impressionistas em seu trabalho pictórico, o mestre incorporou também alguns de seus conceitos em sua atuação didática, como a ênfase no naturalismo, traduzida pela observação direta da natureza na busca da realidade pictórica. Esse objetivismo visual era expressado por meio de temas como paisagens executadas ao ar livre, estudos de naturezas mortas e modelos vivos. Andersen foi responsável pela formação de toda uma geração de artistas de talento, entre os quais figuram os nomes de Lange de Morretes, Stanislau Traple, Kurt Freysleben e Theodoro de Bona, entre outros.
Alfredo Andersen oscilava suas preocupações entre a formação de artistas e a capacitação do operariado para o trabalho na indústria, tendo encaminhado às autoridades da época inúmeros projetos que contemplavam, ora a criação de uma Escola Técnica Primária ou de uma Escola Profissional de Arte Aplicada, ora a criação de uma Escola de Belas Artes. Em sua opinião,
[...] Um curso de desenho para operários traria a felicidade ao Paraná, porque faria a grandeza das suas indústrias. Quando chegarmos a ter pelo menos uma simples Escola de Desenho para Operários, sem falar numa Escola de Artes Aplicadas, naturalmente mais dispendiosa, teremos atingido a primeira etapa verdadeiramente real do nosso progresso. (RUBENS, 1938, p. 72-73).

Infelizmente, Andersen não teve a sorte de ter seus sonhos concretizados. Ao falecer, em 1935, deixou sedimentadas, entretanto, as sementes que culminariam em empreendimentos significativos, como a criação, em 1948, da escola de Música e Belas Artes do Paraná, iniciativa que contou com a colaboração valiosa de alguns de seus discípulos.
Se Alfredo Andersen é por muitos considerado o “pai da pintura paranaense”, a Guido Viaro é creditado o mérito de haver introduzido o Paraná na modernidade das artes plásticas em nível nacional, e mesmo mundial. Numa Curitiba dominada pela rigidez formal dentro de parâmetros do objetivismo visual dos  ensinamentos de Andersen, Guido Viaro representou a subversão às regras e o alargamento da liberdade expressiva. 
Assim como Andersen, Viaro foi um artista por vocação que, por necessidade de sobrevivência, veio a se envolver com o ensino, descobrindo aí seu talento como educador. Sua obra gráfica e pictórica, de grande importância e expressão, é um marco no cenário das artes plásticas no Paraná. Sua produtividade fica evidente através da participação em diversas exposições individuais e coletivas durante todo o período em que viveu no Brasil, além da conquista de prêmios de relevância em salões e certames nacionais. 
De formação autodidata e possuidor de personalidade marcante, foi através de sua influência, não só como produtor de arte, mas como arte-educador, que os paranaenses experimentaram, embora com certo atraso, a sua Semana de 1922, fenômeno denominado por Adalice ARAÚJO (1971, p. 1) como Movimento de Integração da Arte Paranaense. No campo da educação em arte, sua atuação se deu em três diferentes frentes: com as crianças, com os professores e com os futuros artistas. Com cada público, perseguia objetivos distintos, não deixando de manter a coerência de ações e pensamentos que sempre o caracterizou. Não obstante, todas as suas ações nesse sentido concomitantes e relacionavam-se umas às outras em sua conduta pedagógica, estando, principalmente, ligadas pelo mesmo pensamento de que a expressão, por meio da arte, só poderia ocorrer condicionada à liberdade. Viaro possuía uma consciência aguda de que só a educação através da arte humanizaria a sociedade. Acreditava que as ações deveriam ser iniciadas pelas bases, isto é, junto ao público infantil. Idealista, acreditava que a arte possui o poder de redimir a humanidade.
Entre as suas iniciativas pioneiras, destaca-se a criação, em 1937, da Escolinha de Arte do Ginásio Belmiro César, atividade livre que funcionava em período alternativo às aulas dos alunos. É interessante ressaltar que essa escolinha, primeira do Paraná, é anterior à famosa Escolinha de Arte do Brasil, dirigida pelo artista Augusto Rodrigues e que só viria a ser fundada em 1948. Viaro foi responsável, também, pela criação, na década de 50, do Centro Juvenil de Artes Plásticas, instituição voltada à arte-educação infanto-juvenil, em funcionamento até hoje. Além disso, empreendeu, nos anos 50, os primeiros cursos de capacitação em arte-educação para professores da rede pública de ensino do Paraná, numa atitude precursora dos futuros cursos de Educação Artística, criados por lei na década de 70. Como um dos fundadores da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, o artista teve uma atuação marcante junto ao ensino superior de arte, revolucionando os pressupostos vigentes ao incentivar a liberdade de expressão e a individualidade do trabalho artístico, introduzindo o ateliê livre como opção de formação complementar para os alunos. Sua influência alcançou várias gerações de artistas, como Fernando Velloso, Mário Rubinski, Domício Pedroso, Luiz Carlos Andrade Lima, Fernando Calderari, João Osório Brzezinski, Ivens Fontoura e Eduardo Zimmermann, entre outros.
Enquanto Lima, Andersen e Viaro eram artistas que se viram contingencialmente envolvidos com o ensino, Emma e Ricardo Koch podem ser considerados exceção, por terem sido os únicos a receber formação específica de arte-educadores, sendo seu trabalho como artistas considerado em plano secundário se comparado à sua prática pedagógica. Atuando em Instituições oficiais, o casal Koch soube imprimir, em cada ação, seu pensamento pedagógico, o qual não tinha paralelo com a realidade do ensino da época.
 Emma foi responsável pela criação do Departamento de Educação Artística Infantil da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Paraná, propondo a instituição de clubes infantis de cultura e a assistência técnica às escolas primárias. Seu pensamento como arte educadora tinha sintonia com as idéias de educadores como Dewey e Piaget, cujo pensamento iria exercer, um pouco mais tarde, grande influência sobre as práticas educacionais brasileiras. Em sua opinião, a arte só tinha sentido se integrada com a vida. Nesse sentido, todas as linguagens artísticas eram igualmente valorizadas. Teatro, música e artes plásticas conviviam em suas ações em sala de aula num processo de interdisciplinaridade tão em evidência nos dias de hoje. Para ela, um professor deveria ter, necessariamente, um conjunto de qualidades de ordem pedagógica, artística e humana, que o habilitasse a ensinar o aluno a pensar, ver e sentir por meio da expressão genuína e individual, concebendo-o como um ser integral, dotado de corpo, alma e mente. (Koch, s/d.)
Emma Koch tinha finalidades bem definidas em seu trabalho, que não visavam encontrar na criança o artista. Buscava, através da educação criativa, o desenvolvimento do psiquismo, da coordenação motora, da sensibilidade para as cores e formas. Tinha, como objetivos primeiros, desenvolver mais a criatividade do que formar o artista; mais o ser humano do que o técnico (ARAÚJO, 1988, p. 10), valorizando a individualidade de cada criança e buscando contribuir para o seu crescimento como ser social. Conforme suas próprias palavras, nas escolinhas de arte, cada aluno seria considerado uma individualidade, uma única força criadora, que está tratando de revelar seu próprio mundo através do seu trabalho, este servindo como um documento do seu desenvolvimento psíquico, mental e emotivo. (KOCH, s/d.).
Em sua atuação no Colégio Estadual do Paraná, o casal Koch se notabilizou por seus métodos de contextualização artística no ensino de disciplinas de caráter mais técnico como desenho geométrico, criando estratégias de facilitação do entendimento de conteúdos considerados muitas vezes áridos pelos alunos. Atuando sempre em perfeita sintonia, Emma e Ricardo criaram dentro do Colégio um ambiente favorável possibilitando que, em 1969, através de contatos feitos com a TV Educativa do Rio de Janeiro, fosse criado, em caráter experimental, um circuito interno de televisão. Ricardo foi nomeado coordenador de Recursos Audiovisuais, organizando programas com temas do currículo do Colégio, os quais contavam com a colaboração, em cenografia e ilustração, de Emma Koch e Nésia Gaia, que fizeram, inclusive, um curso de desenho animado para maior adequação ao meio de linguagem. A experiência de se trabalhar com um meio completamente novo como a linguagem televisiva dentro de uma escola de segundo grau certamente não tem precedentes na história da educação paranaense, fazendo dos Koch inovadores absolutos no que se refere a estratégias pedagógicas.
Comparando as ações empreendidas por essas personalidades pioneiras, podemos ainda fazer algumas observações relevantes:
Com relação às escolas formais, constatamos que Mariano de Lima e Andersen centravam suas preocupações no estabelecimento de um ensino de arte aplicado aos meios produtivos,  apostando na integração da arte com a indústria através da criação de escolas de artes e ofícios. Trabalhavam com parâmetros estéticos mais rígidos, estabelecendo um limite de criação relativamente mais estreito aos seus educandos. Entretanto, enquanto Mariano de Lima baseava sua prática pedagógica na metodologia praticada pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, impregnada de conceitos do neoclassicismo, Andersen dava um passo à frente, privilegiando os estudos do natural, tanto de estúdio como ao ar livre.
Já Viaro e Emma e Ricardo Koch centraram seus esforços na educação infantil, acreditando ser possível, através da criança, colocar um pouco mais de arte em nossa sociedade. Viaro, seguido por Emma e Ricardo, foi o primeiro a perceber a necessidade de se trabalhar a educação artística com a criança em nosso Estado. Foram ambos partidários do princípio de que a criação deve se processar com a máxima liberdade, e que a criança não deve ser tolhida em seus impulsos artísticos, revelando um grande respeito à sua individualidade. Porém, enquanto Viaro tinha um posicionamento mais radical em favor da livre expressão, identificado com o pensamento modernista, Emma Koch via no ensino da arte o instrumento de integração entre arte e vida, valorizando também o conhecimento específico aliado à experiência do aluno como elemento fundamental para a atuação pedagógica em arte. Nisso, o trabalho educacional da arte-educadora se identifica, de maneira precursora, com as tendências contemporâneas para o ensino da arte e para a educação de maneira geral, relacionadas à valorização da capacidade de reflexão e crítica em detrimento da simples memorização ou do fazer artístico mecânico, repetitivo ou espontaneísta.
Viaro também foi pioneiro na iniciativa de capacitar professores, habilitando-os para a tarefa de trabalhar arte com seus alunos, numa tomada de consciência que só as ações em rede seriam capazes de dar conta da disseminação de suas idéias.
Com relação à formação de futuros artistas, encontramos algumas diferenças fundamentais nas atuações de Andersen e Viaro, justificadas pelo próprio lapso de tempo que separa a chegada de ambos à nossa cidade. Fernando Calderari, em entrevista concedida à Tereza Cristina Lunardelli Ramos, estabelece um paralelo entre esses dois mestres:
Andersen formou uma série de discípulos baseando-se nos conhecimentos clássicos e na rigidez, não no sentido acadêmico das academias. Viaro deixava o aluno mais livre. A parte espontânea do aluno era preconizada, ao passo que Andersen[..]estava sempre dentro daquele bom desenho. Viaro deixava o aluno fluir, tanto é que Andersen determinou uma série de grandes artistas. Viaro vai além, determinando também uma nova concepção de arte, pois, aí, com a arte contemporânea pode-se fazer uma referência de Viaro em diante. (RAMOS, 1984, p.123).

Essas diferenças se fazem notar pela produção dos artistas que passaram pelas mãos de um e outro. Os chamados discípulos de Andersen, mesmo seguindo caminhos individualizados, conservam certa fidelidade estilística ao mestre. Revelam, assim, a exigência de certas normas para a feitura de um bom trabalho. Já entre os alunos de Viaro percebe-se uma diversidade maior de opções expressivas, apesar de alguns deles terem sido bastante influenciados por sua obra. Enquanto Andersen orientava seus alunos por trilhas seguras, Viaro incentivava a ousadia, impelindo-os a experimentar o desconhecido.
Pode-se dizer que o processo da arte-educação em Curitiba se deu mediante a absorção de influências externas, mais precisamente européias, e que sua evolução não ocorreu de maneira linear mas, aos saltos. Em seus primórdios, esteve intimamente ligado à persistência e determinação de pessoas que entendiam ser a arte essencial para a vida das pessoas.
Mariano de Lima, Alfredo Andersen, Guido Viaro, Emma e Ricardo Koch. Todos foram, cada um a seu tempo, pioneiros da arte-educação no Paraná. A cada um deles é creditado um passo importante no ensino da arte, necessário para que outras ações fossem desenvolvidas na seqüência. Foram desbravadores de caminhos, enfrentando dificuldades com a intenção de que no futuro se pudesse, mesmo em situação não ideal, avançar no sentido da difusão do ensino da arte e da melhoria de sua qualidade.
Graças aos seus exemplos podemos, hoje, encaminhar nossa luta no sentido da formação de profissionais informados e competentes que, num processo de aprendizagem contínua, possam direcionar seu trabalho em sala de aula no sentido de descortinar o universo artístico aos seus alunos, num ambiente em que a busca do conhecimento, a reflexão, o espírito crítico e sobretudo o prazer são condições indispensáveis para que se possa processar a verdadeira apreensão da arte.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ARAÚJO, Adalice. Emma e Ricardo Koch, arte-educadores e artistas plásticos.  In: SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA. Curitiba:  1988.

_____.  Guido Viaro - Pioneiro da Pintura Moderna do Paraná. Curitiba, 1971

CARNEIRO, David.  Galeria de ontem.  Curitiba:  Vanguarda, 1963.

CARNEIRO, Newton.  O Paraná e a caricatura.  Curitiba: Museu de Arte Contemporânea do Paraná, 1975.

DIEZ, Carmem Lúcia Fornari.  Mariano de Lima: um olhar para além da Modernidade.  Curitiba: Museu Alfredo Andersen, l995.

KOCH, Emma.  Notas.  Curitiba, s/d.  Datilografado.

OSINSKI, Dulce Regina Baggio.  Ensino da arte: os pioneiros e a influência estrangeira na arte-educação em Curitiba.  Curitiba: 1998.  Dissertação de Mestrado.  Setor de Educação, Universidade Federal do Paraná.

RAMOS, Tereza Cristina Lunardelli.  A importância de Guido Viaro no meio cultural e artístico do Paraná.  São Paulo: 1984. Dissertação de Mestrado - Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo.

RUBENS, Carlos.  Andersen: Pae da Pintura Paranaense.  São Paulo: Genauro de Carvalho, 1938.